Quando Você Vive no Automático

A rotina tem seu valor. Ela organiza os dias, ajuda a cumprir responsabilidades e traz uma sensação de estabilidade.

No entanto, existe uma diferença entre viver com uma rotina e viver no automático.

Muitas pessoas acordam, trabalham, resolvem compromissos, cuidam da família e encerram o dia sem realmente perceber o que viveram.

Os dias passam rapidamente, as semanas se acumulam e, em determinado momento, pode surgir uma sensação difícil de explicar: a impressão de estar apenas existindo, sem realmente participar da própria vida.

Quando fazer tudo não significa estar presente

Viver no automático nem sempre é uma escolha consciente.

Em períodos de muitas responsabilidades, preocupações ou exigências, podemos nos concentrar tanto no que precisa ser feito que deixamos de perceber o que está acontecendo dentro de nós.

O problema é que, quando isso se torna frequente, podemos perder contato com aquilo que sentimos, desejamos ou necessitamos.

A pessoa continua funcionando.

Cumpre suas tarefas.

Resolve seus problemas.

Mas nem sempre percebe como está vivendo esse processo.

Os sinais podem ser sutis

Nem sempre a desconexão aparece de maneira evidente.

As refeições podem ser feitas sem atenção.

As conversas acontecem enquanto a mente está em outro lugar.

Os momentos de descanso são preenchidos por distrações constantes.

Mesmo quando existe tempo livre, pode ser difícil desacelerar e simplesmente estar presente.

Às vezes, o corpo está em um lugar enquanto a atenção está em outro.

E, quando percebemos, o dia terminou.

O que pode estar por trás desse funcionamento?

Na Análise Psicossomática, viver no automático pode ser observado considerando a relação da pessoa com sua própria experiência.

Em alguns casos, esse modo de funcionar pode ter se desenvolvido como uma forma de lidar com períodos de muita exigência, emoções difíceis ou situações que pareciam exigir que a pessoa simplesmente continuasse.

Com o tempo, seguir fazendo o que precisa ser feito pode se tornar tão habitual que deixa pouco espaço para perceber o que acontece internamente.

O processo terapêutico pode ajudar a ampliar essa percepção e compreender o que levou a pessoa a funcionar dessa maneira.

Não se trata apenas de perguntar “por que você não desacelera?”

Mas também:

“O que acontece quando você para?”

“O que você percebe quando deixa de fazer e começa a sentir?”

“Há quanto tempo você está apenas cumprindo tarefas sem perceber como está vivendo?”

Voltar a perceber o próprio corpo

Sair do automático não significa abandonar responsabilidades ou mudar toda a rotina.

Pode começar de maneira muito mais simples.

Perceber a própria respiração.

Notar a tensão dos ombros.

Sentir o sabor de uma refeição.

Caminhar prestando atenção aos movimentos do corpo.

Escutar alguém sem, ao mesmo tempo, pensar na próxima tarefa.

São pequenas experiências de presença que podem ajudar a pessoa a perceber novamente o que está acontecendo naquele momento.

Não é preciso transformar cada instante em uma prática perfeita.

É simplesmente estar um pouco mais presente no que já está acontecendo.

A vida também está nos pequenos momentos

A vida não acontece apenas nas metas futuras, nas obrigações ou nos problemas que precisam ser resolvidos.

Ela também está no café tomado pela manhã, em uma conversa, em uma caminhada, em uma pausa, em uma respiração percebida com atenção.

Talvez o automático tenha ajudado você a atravessar determinados períodos.

Mas talvez agora seja possível começar a perceber se ele ainda é necessário.

Então, vale a reflexão:

Você tem vivido seus dias ou apenas cumprido o que precisa ser feito?

Quando foi a última vez que você realizou alguma coisa sem pressa e realmente esteve presente nela?

O que o seu corpo tem percebido que talvez você ainda não tenha parado para ouvir?

Talvez sair do automático não seja fazer mais.

Talvez seja voltar a perceber aquilo que já está acontecendo enquanto você vive.

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